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“Apoiamos o investimento e comércio bilateral entre Inglaterra e Portugal”
 


Tim Chambers & Bruce Dawson

A Câmara de Comércio Luso-Britânica foi criada em 1911. Que objectivos norteiam a sua acção?
Sempre houve uma relação forte entre Portugal e a Grã-Bretanha e as câmaras de comércio bilaterais foram criadas para desenvolver o negócio das relações bilaterais em termos de importação e exportação de investimentos. Acho que foi um desenvolvimento natural das relações de comércio e de indústria, na altura.

Agora já têm cerca de 500 membros de ambos os países. Contudo, Portugal tem um maior número de membros.
E é lógico que assim seja, porque a nossa sede é em Lisboa. No entanto, temos uma grande expressão em Inglaterra. A nossa câmara está estabelecida em Portugal e o nosso objectivo é ter associados em Portugal.

Que estratégia tem definida para essas relações comerciais?
Temos diversas acções, que passam, por exemplo, por fazer missões, ajudar as empresas portuguesas a estabelecer relações (vendedores ou compradores) com Inglaterra. Também, às vezes, apoiar a ida às feiras, promovendo os seus produtos em Inglaterra. É importante frisar que apoiamos tanto o investimento de Inglaterra em Portugal como o inverso, de Portugal em Inglaterra. São dois objectivos bilaterais: o investimento cá e lá e a importação/exportação nas duas direcções.

De que forma concreta pode ser feito esse apoio ao investimento?
Um ponto importante é que temos laços muito próximos da Embaixada Britânica. Para dar um exemplo, é nosso objectivo ajudar empresas de Inglaterra para Portugal, tentando estabelecer contactos, ou com companhias ou com pessoas. Na exportação é a mesma coisa: quer-se exportar para Inglaterra e procuramos ajudar, através das nossas relações com as câmaras de comércio na Grã-Bretanha. O nosso objectivo, no fundo, é ajudar os associados.

Estabelecer a ponte entre Portugal e Inglaterra.
Sim, somos um intermediário. Se calhar, a grande vantagem das câmaras é justamente com as Pequenas e Médias Empresas, que, muitas vezes, não têm a organização interna suficiente para levar a cabo essas tarefas. Podemos ajudar, estabelecendo ligação com advogados, com firmas de contabilidade, com firmas de imobiliário, etc. Também ajudamos na parte burocrática do negócio, ou seja, empresas britânicas que se querem estabelecer em Portugal e que não saibam como é que o devem fazer.

Como é que, localmente, a legislação funciona.
Exacto. Como é que se forma a empresa em Portugal e há uma certa burocracia que é necessário cumprir. Ajudamos, também, a fazer isso, encontrando as pessoas certas e, se tal for necessário, tratamos com os notários e demais entidades.

Há uma procura constante desses serviços?
Há alguma. Há sempre empresas que nos procuram directa ou indirectamente, através da embaixada. Normalmente, as embaixadas tratam dos grandes investimentos, enquanto que nós dedicamo-nos mais às PME.

Porque não têm um volume de negócios que justifique tal acção.
Sim, mas, por outro lado, mais de 90 por cento das empresas existentes são PME, pelo que, logicamente, é nelas que se centra a maior parte do nosso trabalho.

A Câmara de Comércio Luso-Britânica tem relações com o poder central de forma a defender o comércio e as relações bilaterais entre Portugal e Reino Unido?
Temos capacidade de levar qualquer associado que necessite aos ministérios ou departamentos do Estado.

Até para terem acesso às linhas de apoio existentes.
Exactamente. Temos vários casos/exemplo disso, onde conseguimos ajudar firmas a ultrapassar problemas que tinham, levando-as a um determinado departamento ou a um determinado ministro ou secretário de Estado.

As empresas britânicas interessam-se por Portugal, em termos de investimento, de negócio?
As empresas britânicas interessam-se muito por Portugal. Somos, hoje, o país crescente no turismo para Portugal. Sei que algum do turismo que era destinado, antes, a outros países do Sul da Europa, dirigiu-se agora para Portugal. Também tem havido investimentos britânicos muito grandes na área do golfe, por exemplo, para não falar nas indústrias em Portugal. Há uma relação antiga entre os dois países e Portugal toca sempre aos ingleses.

Mas principalmente no turismo. É um sector que interessa muito aos ingleses.
Antigamente, pós II Guerra Mundial, no que respeita às trocas comerciais, para Portugal, Inglaterra era o maior mercado de negócios. Depois, as coisas modificaram-se um pouco, mas ainda continua a ter uma expressão interessante. Continua-se a fazer o negócio. Por exemplo, em relação ao norte do país, podemos salientar que os ingleses têm sido grandes compradores das áreas têxteis e de calçado. Esta região teve sempre uma relação muito estreita com as grandes empresas de retalho na Grã-Bretanha. As relações estabelecem-se de acordo com aquilo que zona produz e precisa em investimento e demais trocas comerciais.

Quais são as regiões de Portugal mais relevantes para a Câmara de Comércio Luso-Britânica, que tem um maior número de empresas associadas?
A tendência tem sido sempre Lisboa e Porto, porque são os pólos onde existem maior número de empresas, mas viemos a Aveiro, numa acção da câmara, justamente para conseguir ter uma maior expressão nas outras regiões. Começámos com Aveiro e tencionamos fazer acções semelhantes noutras regiões.

A ideia é cativar novos membros?
Sim. Evidentemente, interessa sempre ter mais sócios. A sede da Câmara de Comércio Luso-Britânica é em Lisboa, mas temos sucursais no Porto e no Algarve. Temos esses três centros cobertos pela câmara. O nosso objectivo é ir agora para as regiões e Aveiro foi a primeira a ser escolhida, porque pensamos que é uma zona que se tem desenvolvido muito. Viemos a Aveiro numa iniciativa que contou com o apoio da AIDA (Associação Industrial do Distrito de Aveiro) e a da AEA (Associação empresarial de Águeda) e com a qual estamos muito satisfeitos. Pudemos fazer esta acção, que é de networking, para as empresas conhecerem a nossa câmara e uns aos outros, porque esta é, também, uma das funções da câmara. É deste contacto próximo entre empresas que advêm os negócios. Pretendemos, também, ajudar as PME e trazer os nossos serviços para eles.

De que forma caracterizaria as empresas de Aveiro?
Diria que é uma surpresa para mim [Bruce Dawson] sempre que venho a Aveiro, observando como esta cidade se desenvolveu nos últimos 10/15 anos. Se calhar, é a cidade, em Portugal, que mais se desenvolveu. Lembro-me de Aveiro como uma cidade porto de pesca e, hoje, é uma região muitíssimo grande, com muita indústria e comércio. Por isso, Aveiro surgiu como a escolha óbvia para lançar estas acções da Câmara de Comércio pelas diferentes regiões portuguesas.

Quanto ao investimento português no Reino Unido, o que aconselha?
Não somos conselheiros, somos um instrumento, pretendemos apenas ajudar as diversas empresas. O que procuramos é encontrar o parceiro certo, recorrendo às nossas relações com as várias câmaras de comércio nas diversas zonas do país, bem como na Grã-Bretanha. Com isto, esperamos poder pôr os dois lados em contacto um com o outro. Esse é o objectivo.

Tem sido um diálogo fácil entre os dois países?
Sempre foi muito fácil. Normalmente as empresas portuguesas que querem exportar, por exemplo, para Inglaterra, sabem o que querem. Muitas vezes, não sabem é como entrar no mercado e é aí o nosso papel, facilitando e abrindo as “portas”. E o mesmo acontece com as empresas inglesas que querem investir em Portugal.

Qual é a balança com maior peso: exportação ou importação?
Neste momento, acho que está relativamente equilibrado, embora dependa da análise: se analisamos à base do comércio ou se analisamos conjuntamente com os serviços, porque logo que se inclua o turismo nestes dados, estes alteram-se, porque o contributo do turismo é muito forte.

Que diferenças denota na actividade comercial entre os dois países?
O mundo é muito pequeno e o que se faz em Inglaterra conhece-se quase imediatamente em Portugal ou em qualquer outro ponto do globo. A maneira de fazer o negócio está mais ou menos equiparada. Acresce que temos o mercado comum, a Europa, e toda a gente faz as coisas dentro das regras estabelecidas por Bruxelas, pelo que não há grandes diferenças entre os dois países na maneira de fazer negócio.

Há quem defenda que a Europa deve ser mais proteccionista. Concordam?
Depende se defendemos o proteccionismo ou a liberdade de comércio.

E defendem?
Penso que tanto a Europa como os Estados Unidos e outros países defendem, efectivamente, o comércio livre, mas é claro que no comércio livre as regras têm que ser iguais para todos. Se calhar,
é neste aspecto que se pode integrar algum proteccionismo, porque há países que exportam para a Europa, que não utilizam as mesmas “armas” (que consideramos normais do comércio). Na generalidade, defendemos o comércio livre. Cada um de nós tem que encontrar a melhor maneira possível para ser competitivos, para encontrar a eficiência e a produtividade. Esse é o nosso dever. Se as regras do jogo não são iguais para todos, é lógico que teremos problemas.

Será concorrência desleal.
Exacto. Para dar um exemplo extremo: se uma fábrica emprega menores e paga em salário tostões é lógico que isso é desleal e socialmente contra os direitos do homem e não podemos concordar.

Como analisam o actual momento económico?
Obviamente estamos numa crise e ela é grave, mas, por outro lado, acho que está a publicitar-se demasiado a crise e a criar-se um pânico desnecessário. Já estive na Ásia e na América do Sul, nos últimos dois meses, e a maneira de eles encararem esta crise é muito diferente, porque o que se vê nos jornais é muito mais factual, enquanto que na Europa está a exagerar-se e a fazer-se quase um “suicídio”, sem tentar encorajar as pessoas na economia. Neste momento, devia tentar criar-se um mecanismo para encorajar as pessoas para não entrarem em pânico.

É uma questão de postura, também, perante a crise.
Sim. Na Europa, somos muito pessimistas. É bom que se aprenda o que se fez de errado, corrigir e tentar evitar que tal aconteça outra vez. É necessário aprender a lição. Que erros apontariam à forma de lidar dos empresários, em Portugal? Uma coisa é certa: as crises não são criadas pelos funcionários, mas pela maneira como é feita a gestão. O que tem acontecido em alguns bancos e empresas é exemplo do que se estava a passar. A humanidade, de uma forma global, desenvolveu-se numa base materialista e não numa base de realidade. Temos que aprender a sair desse sonho materialista e entrar na realidade. O grave é que os inocentes “pagam” pelos culpados.

A actividade comercial foi uma das que mais se ressentiu com a crise, devido à perda de poder de compra.
Exacto. As economias chegam a este ponto e o desenvolvimento do negócio bilateral chega a estas situações porque todo o fundo bancário, de repente, não tinha dinheiro para financiar os negócios. Muitas empresas que estavam dependentes do financiamento, em custos razoáveis, estão agora numa situação muito difícil e isso, logicamente, veio reduzir muito o negócio bilateral.

Que expectativas tem quanto ao futuro?
Irá levar tempo a resolver-se esta situação. Deverá levar uns três ou quatro anos a ultrapassar esta situação económica. Estamos a sonhar se achamos que vamos resolver estes problemas este ano, temos de ser realistas, mas isso não implica que não consigamos começar a curva ascendente. A primeira medida é eliminar os erros e os saldos negativos de balança comercial que existe em todo o mundo e tentar abrir e desenvolver negócio. Para isso, precisamos do sistema bancário, que é muito necessário principalmente para as PME, que são a base económica portuguesa.

Que mensagem final deixariam em Aveiro?
A nossa intenção aqui é criar um fórum, uma situação em que os empresários saibam que têm um local onde podem começar a falar entre si, criando o networking. Gostamos de fazer este tipo de acções regularmente e achamos que, assim, os empresários e outras pessoas de negócio podem se encontrar e trocar impressões. Depois, na câmara tentamos fazer o que os sócios querem e, nestes encontros, colhemos informações dos sócios e futuros sócios sobre o que querem que a câmara faça. Isto ajuda-nos a cumprir a nossa missão perante as empresas.

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