Filipe de Botton - um empresário com o olhar no futuro
 
Filipe de Botton - um empresário com o olhar no futuro

A chegada ao local é já uma clara mensagem de que nos encontramos num Portugal diferente. O edifício de linhas contemporâneas, quase nórdicas, é uma coisa sossegada percorrida por linhas de água entrecortadas de verde onde se passeiam, pasme-se, coelhos.

A Logoplaste, empresa estrela do universo empresarial nacional que se dedica ao fabrico de embalagens, foi fundada em 1976 e apresenta hoje um cartão de visita invejável. Com 5 mil milhões de embalagens produzidas, 85 mil toneladas transformadas e um volume de vendas de 200 milhões de euros anuais, através de 39 fábricas espalhadas por 6 países - Portugal, Espanha, França, Reino Unido, Itália e Brasil - é a terceira empresa europeia do sector.

O seu CEO, Filipe de Botton é a alma do negócio, juntamente com o sócio de há 28 anos, Alexandre Relvas, com quem divide o gabinete, sublinhando a partilha de pedras e luzes de que é feito o caminho do sucesso, a confirmar por que lhes chamam os Dupond&Dupont. Botton, 47 anos, de figura ágil, olhar azul agudo e modos informais, foi considerado o Empreendedor do Ano de 2004 pela organização do VCIT (5º Congresso Internacional de Capital de Risco), ganhou o prémio «Personalidade Marketing Industrial de 2004», integra o Conselho Estratégico da Universidade do Minho, é membro da direcção da Cotec (Associação Empresarial para a Inovação), uma das vozes mais audíveis do «Compromisso Portugal», um think tank que tem a ambição de «influenciar mudanças positivas na Sociedade Portuguesa» e - ufff - é Presidente da Direcção da ELO, Associação Portuguesa para a Cooperação e Desenvolvimento.

É disto que prefere falar. «No âmbito da ELO atribuí-me duas missões. Criar o Conselho Empresarial da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), há 1 ano. Mas criar negócios é difícil se não houver o indispensável...que é dinheiro. Ora, existem linhas subvencionadas de crédito, ao abrigo da Convenção de Cotonou, com valores acima dos 15 biliões de euros....por utilizar! Acontece que as empresas portuguesas não têm um instrumento que lhes permita servirem-se dessas linhas. Logo...há que criá-lo». A segunda missão é, pois, a criação de uma EDFI (European Development Finance Institution) portuguesa, que «está em fase de desenvolvimento e creio existir até ao final do ano».

A um investidor estrangeiro descreveria assim o país: «Portugal é um país que vale a pena», exclama. «Porque há muito por fazer e porque é extremamente aberto aos não nacionais. O português é hospitaleiro e os estrangeiros sentem-no. Concretamente: o turismo e todas as actividades co-relacionadas oferecem um leque alargado de oportunidades a quem queira investir». Este jeito de olhar para o lado cheio do copo - «qual é o país sem defeitos?», comenta, impaciente - há-de vir-lhe nos genes. A família portuguesa de origem judaica deixa Portugal na altura da Inquisição, segue para Espanha e daí para a Holanda, onde é forçada a novo êxodo já no início do século XX, desta feita para o Brasil, onde nasce o pai, Marcel. Filipe nasce em Lisboa, com dupla nacionalidade e admite que a história da família «talvez ajude a que uma pessoa se adapte».

Maleabilidade é o mínimo com que se pode qualificar a história da Logoplaste. Nasce em 1976, quando o pai resolve recomeçar do zero um negócio que perdera com a revolução. A Titan, primeira fábrica em Portugal a fazer garrafas em PVC fecha, intervencionada pelos trabalhadores, a quem fora vendida «por um escudo simbólico, meses depois de ser avaliada numas largas dezenas de milhões de dólares», recorda. Desta vez não quis arriscar voltar a perder tudo. É assim que, por reacção, cria o conceito revolucionário de «hole-in-wall»: fazer pequenas fábricas de embalagens dentro das fábricas dos clientes. «Ele criou um novo paradigma de gestão, muito antes de serem inventadas buzzwords como outsourcing integrado e similares» conta, orgulhoso, o filho.

Que lhe segue as pisadas, mais tarde com a internacionalização da Logoplaste em 90, por reacção à «invasão espanhola». Longe iam os tempos em que, ainda na Faculdade, cria com o sócio de sempre empresas de serviços financeiros culminando na Interfinança, o maior investidor em Bolsa da altura. «Visto hoje, ir para Espanha era uma condição para crescer. Na altura... uma aventura!» responde, divertido. Porém as coisas correm mal. «Durante seis anos perdemos dinheiro. Cometemos erros de estratégia mas aprendemos algo simples: em Roma sê romano». Não é com certeza simples de explicar o sucesso da empresa. Botton conta-o assim: «Temos uma excelente equipa humana, uma organização de total delegação e uma cultura de enorme flexibilidade». Investem 3% do volume de vendas em investigação aplicada. «Porque é que uma garrafa tem o gargalo no cimo? Porque nunca se pensou diferente. Nós cultivamos a dúvida sistemática e aplicamos o conhecimento à inovação de forma a provar aos clientes que somos melhores». Diferenciação é essencial quando se concorre com gigantes multinacionais que vendem seis vezes mais. Entre os parceiros contam-se a Exxonmobil, Yoplait, Coca-Cola, Danone, Lever-Fabergé, Procter&Gamble, Candia ou Arla Foods, o maior produtor de leite do Reino Unido. E contam ainda as duas características chave: paixão e persistência. «Estas é que fazem a diferença. E quando se têm acontece algo surpreendente: a sorte! Porque a sorte é preciso procurá-la...».

A agitação torna-se discretamente perceptível para o fim da conversa, quando se aproxima a hora do jantar anual do CADIN, uma menina dos seus olhos que refere com largueza. Há três anos os sócios resolveram dar expressão às doações dispersas faziam. Criam o Centro de Apoio ao Desenvolvimento Infantil, com uma série de parceiros sonantes, para ajudar crianças com dificuldades de aprendizagem. Hoje atira três números mágicos: o CADIN segue 2000 famílias, recebe 150 novas crianças por mês e uma em cada quatro é apoiada pela bolsa social. «Ou seja, isto não é um centro para ricos». Refere a contragosto o montante em que o subvenciona - «perto de meio milhão de euros, se quer um valor» - e insiste em registar o nome de Helena Felix da Costa, a generosa alma do voluntariado que ali se reúne para fazer aquelas crianças mais felizes.

O ritmo rápido, sem pausas, com que fala dos negócios abranda imperceptivelmente quando se trata de si. É telegráfico a contar dos três filhos, da sorte que teve com a mulher, médica, do ser católico, dos romances históricos que prefere ou do desporto, que cultiva com afinco. Considera-se «de centro direita, com fortíssimas convicções e preocupações sociais». Pratica kite surf, ténis e body board, «às seis da manhã, no Guincho». Apesar de ser dado como «ministeriável» com regularidade, enjeita a hipótese. «Sou demasiado frontal. Gosto de ajudar o meu país, e ajudo, ao criar riqueza e emprego».

Nestes dias em que a alma do país está por um fio é um bálsamo ouvir alguém cuja memória está muito mais interessada no futuro. Agora, por exemplo, vai diversificar por dois novos trilhos. O vinho: «cerca de 100 hectares de vinha em S. Miguel de Machede, Évora, uma adega de 350 mil litros». Quer produzir dois milhões de garrafas por ano, a partir de 2006. «Porque gostamos! E porque o vinho tem um lado lúdico aliado ao profissional muito interessante». O outro é a hotelaria. A Logoplast, associada com o grupo madeirense Ocean Islands, prepara-se para construir dois hotéis. «Arrancamos com um primeiro em Lisboa, na Avenida da Liberdade, de raiz. São 120 quartos, quatro estrelas ‘mais’, com um investimento de 17 milhões de euros». Não faz a coisa por menos. O primeiro hotel em pleno coração da capital. O homem cosmopolita que gosta de dizer que adora ser português aplica-se a colocar a fasquia sempre mais alta porque acredita no que dizia S. Francisco de Assis. Assim: «comece por fazer o que é necessário, depois o que é possível e de repente estará a fazer o impossível».

Text  Teresa Maia e Carmo
Photos Abilio Leitão / Paulo Barata

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