Carlos Monjardino - o perfil de um homem renascentista
 
Carlos Monjardino - o perfil de um homem renascentista

Tem o perfil renascentista quase extinto do homem que cultiva múltiplos interesses com naturalidade, decantados no gesto largo de bon vivant, ainda e sempre encantado com a vida. Estudou em Inglaterra, viveu em Paris e em Macau, percorrendo pelo caminho as sete partidas do mundo, onde alimentou o gosto pelo coleccionismo de luxo e aperfeiçoou um talento inato para os negócios.



Aos 29 anos atingiu o topo de carreira no banco falido que se propôs recuperar em França - conseguiu - e desde então tem dado largas ao toque de Midas que claramente lhe coube. Actualmente gere três fundações (Fundação Oriente, Fundação Stanley Ho e Fundação Monjardino) e está ligado «a umas 6 ou 7», como a Mário Soares.

Os mais recentes projectos na área vitivinícola são uma boa amostra do tipo de interesses que persegue. Vai recuperar o exquis vinho Colares, correspondendo ao apelo do concelho perante a quase certa extinção da casta Ramisco, na zona das Azenhas do Mar. «Comecei por achar a ideia interessante...para perceber que aquilo era um buraco enorme. A vinha - com 8,5 hectares- estava doente, teve de ser toda arrancada e foi um processo difícil...», conta, divertido. Através da Fundação Stanley Ho gere também a Quinta do Conde, uma propriedade com 11 hectares, que recuperou investindo numa experiência bem sucedida com as castas Pinot Noir e Aragonês. Explora ainda uma herdade contígua à casa de família, em Canha, Vendas Novas («senão não tinha tempo para lá ir meter o nariz»). São 30 hectares onde plantou Trincadeira Preta, Petit Verdot, Touriga Nacional e Sirah, para uma produção de 80 mil garrafas/ano, comercializadas com a marca Escatelar, o nome do Monte.

As três explorações representam um investimento de cerca de 1,5 milhões de euros. Curiosamente, falamos de um homem que quase não bebe vinho. «Gosto de cheirar e provar, mas um copo chega-me. Prefiro spirits, como whiskie e cerveja - que não devia porque faz imensa barriga...».

A hotelaria é outra das áreas em que Monjardino tem vindo a apostar forte. A jóia da sua coroa é o novo Aviz, hotel de charme a inaugurar este mês que recupera a ementa e o serviço lendários do original - ocupava todo o quarteirão do actual Sheraton. A magia do local onde viveu Calouste Gulbenkian e pernoitavam amiúde celebridades como Ava Gardner ou Caruso regressa intacta, 5,5 milhões de euros depois. «Eu ia lá em miúdo, com o meu avô Pulido, que era médico do senhor Gulbenkian. Fiquei com o restaurante e mais tarde praticamente ofereci à Fundação o que sobrou e guardei. Volto com a mobília, quadros, candeeiros e tudo o que pertenceu ao velho Aviz».

No Grande Hotel do Monte Estoril quer fazer algo semelhante «um furinho abaixo». A ideia é transformá-lo em aparthotel de charme e quatro estrelas, criando ao lado a brasserie Aviz, resultante do restaurante que possui no Estoril. Tem ainda 50% do centenário Grande Hotel do Luso, um três estrelas que passou a quatro após investimento de 8 milhões de euros (com a Fundação Bissaya Barreto), um hotel no Montijo gerido pela cadeia Sol Inn, parte das marinas de Portimão onde pretende edificar um projecto de luxo que custará cerca de 20 milhões de euros, e as Caldas de Monchique (5 milhões), complexo termal que comprou ao Estado há 12 anos, completamente abandonado e agora tem cinco unidades hoteleiras, de um requinte deslumbrante. O portfolio hoteleiro inclui ainda a ligação ao Grupo Pestana nas Pousadas de Portugal, o Hotel Timor em Dili e a ideia de abrir várias pousadas no Extremo Oriente.

«Há sempre razões para as coisas. Nós queremos não perder e, de preferência, recuperar algum dinheiro com a hotelaria, mas investimos sobretudo em coisas mais ou menos abandonadas. Os investimentos da Fundação Oriente (FO) são muito de ordem social ou cultural. Uns são produtivos, outros estéreis - feitos com a ideia de manter o património do país. O Hotel Timor, fi-lo por razões sociais. Por simpatia com o país em questão. Custou-nos 1 milhão de contos, corre bem, mas nunca mais recupero aquele investimento!...», encolhe os ombros e continua: «mas isso faz parte do que a FO tem de fazer, independentemente daquilo que tem de ganhar».

É o caso do histórico Convento da Arrábida, que adquiriu «em condições muito especiais à família Palmela». Recuperou-o e transformou-o em cenário de luxo para conferências e seminários de topo, que pretende expandir para fins de cuidado turismo cultural. «Não posso abrir completamente, senão dão cabo da Arrábida. É um exemplo do que não produz retorno, mas não tenho o direito de o manter só para a FO que, como instituição de utilidade pública, tem de partilhar o seu património».

«Adoro recuperar», confessa. Este prazer do espírito dos lugares é um traço presente também nos seus gostos imobiliários. É praticamente dono da Calçada da Graça. «Tenho o 19, o 17, o 15 , o 11, o 18 e os jardins do 13 - a vista! Vendi parte do 16 aos inquilinos, algumas fracções por umas centenas de contos...porque achei que tinha de os manter. Eles são de lá! Fazem parte da Graça. E desvirtuá-la dos que ali viveram toda a vida é coisa que não sou capaz de fazer. Continuo a ter cerca de 30 inquilinos, alguns só por graça (não me estou a queixar!), e um ou dois já deixaram de pagar renda porque eu disse não valia a pena». Eis outro investimento difícil de equilibrar, «só me custa dinheiro», mas de que não abdica. «Porque não quero que estraguem e desejo que se conserve século XVIII puro».

É onde prefere viver, mas tem mais uma série de casas. Hesita na contagem: «deixe ver...em Paris, Cascais, Estoril, na Marinha, outra em Santana da Serra, que comprei há 40 anos (tem 20 hectares de península dentro da barragem, com 4 km à frente de água!) e o Monte Escatelar, em Canha, uma recuperação complicada (mais de 1000 m2 só de habitação, um disparate) mas que ficou muito bonito». O culto do belo vem-lhe da família, reconhece - de quem herdou referências muito fortes - mas ao longo dos anos aprofundou-o. A fabulosa colecção Kwok On que lhe foi oferecida é o pontapé de saída para o futuro Museu do Oriente (2006), que terá uma zona de fine arts com o que a FO foi coleccionando. É célebre a sua colecção de relógios de algibeira, «lindíssimos», comprados por todo o Médio Oriente, parada há 20 anos. «Hoje só compro de pulso...e com este feitio». Mostra o Frank Muller que traz, o favorito, enquanto fala de tentações Patek Philipe e quejandos.

Tem uma paixão por carros, sobretudo italianos. Adora velocidade e corre no autódromo, «quando calha». Tem um Maseratti, três Ferraris, Porsche, Bentley, «dois ou três» Mg’s, Cooper, um Lotus, protótipos só de circuito, mas o preferido é o Mercedes 300 SL, «daqueles que levantam as portas».

É também um interventor social discreto mas convicto e nalguns casos, pioneiro, como foi com as oito crianças que adoptou. Com a primeira mulher, de uma vida, («namorámos desde os 12 anos») teve dificuldades em ter mais filhos a seguir à primeira. Correu seca e meca até se aperceber que «aquilo era ridículo, com tantas crianças a precisarem de pais». Cria então a Fundação Monjardino com a filosofia de adoptar grupos de irmãos, que normalmente são separados pela adopção. Mais tarde acabaram por vir mais três filhos biológicos: «agora tenho 12, entre os 3 e os 36 anos, com os netos pelo meio, de modo que é um pouco confuso...!», mente com prazer o patriarca assumido. «Não acredito nessa história do sangue: o importante é a formação das crianças». Conta com orgulho a média de 19 de uma filha que lhe chegou com três anos de atraso, e enumera o bom desempenho de todos, mesmo o estarola do mais novo que o obriga a estar de olho nos estudos  - o que faz: «arranjo sempre tempo para isso».

Gosta de jogar poker, «de arriscar», mas também aí revela um perfil cerebral. Aquele que foi um estudante estróina, sabe que foi privilegiado pelas circunstâncias. «Estive sempre no lugar certo na altura certa. Estava em Paris em 1974, e não ia deixar o senhor Bulhosa pendurado. Podia ter vindo sem problemas - a minha família sempre foi de esquerda, tive o pai e o irmão presos... Depois fui para Macau, um bocado à aventura, porque o Dr. Soares me convidou e eu estava com o bichinho da política... Foi muito enriquecedor. A presidência da TVI foi apaixonante!».

Agnóstico, tem esta certeza: «cada um faz o que quer com o seu dinheiro... Mas sempre tive alguma capacidade de perceber o que anda à minha volta. Sobretudo o que é mau... e gostaria que não acontecesse no meu país. Ou em país nenhum. A certa altura, resolvi agir. Sou um bocado desprendido das honrarias. Porque acho que andamos cá todos a fazer o que somos supostos fazer. Desde o Presidente da Republica ao outro extremo todos têm... um job. As pessoas dão-se demasiada importância. Estão convencidas de que, só porque tiveram mais sorte ou mesmo mais habilidade, têm mais direitos que as outras...não têm!».

É insuficiente o espaço para dar conta da intensa actividade deste fazedor, que não aceita conselheiros e tem uma quantidade frenética de ideias por dia. O mesmo que sempre quis ser engenheiro naval («ou juiz...») e neste momento pode estar no sítio onde se sente melhor: o barco com 10 anos que comprou em Hong Kong e faz questão de comandar, atafulhado da miudagem que compõe a sua apreciável família. «Sou um bocado aventuroso nestas coisas. Estou lá em cima enquanto há sol, vão-me levar uma sandes de vez em quando. Posso estar 9 horas seguidas ao leme, sem sacrifício nenhum». É fácil imaginar que sim.

Text  Teresa Carmo
Photos  Paulo Barata

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